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Full text of "bara-do-corpo"

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REVISTA OLORUN, N. 23, fevereiro, 2015 
ISSN 2358-3320 http://www.olorun.com.br 


BÀRA DO CORPO 


Luiz L. Marins 

www.luizlmarins.com.br 


Quinta edigao com revisòes. 
01/03/2016 


RESUMO 


Este trabalho analisa o equivoco da palavra iorubà Baraa, que significa a pròpria pessoa, 
ou metafisicamente "o espirito que acompanha o corpo", desassociando-o do conceito 
“Èsù Bara do corpo " inserido nas religioes afro-brasileiras corno elemento basico de 
formagào da No?ao de pessoa sem o qual "a pessoa nao pode saber que està vivo". 

0 texto mostra as possibilidades em que o equivoco possa ter ocorrido devido ao 
parònimo das palavras Baraa vs Bara. 


Palavras chaves: Exu, Bara, Bara do corpo, loruba, Nogao de Pessoa. 


Bara do Corpo - Luiz L. Marins 


INTRODligÀO 


0 conceito de "Bara do corpo" ou "Èsù do corpo" foi introduzido nas religioes afro- 
brasileiras pelo livro tese "Os Nagò e a Morte", de Juana Elbein dos Santos. Este pseudo 
conceito de pessoa (a nosso ver) foi adotado academicamente e atualmente ja 
vivenciado religiosamente nas casas de orixà do Brasil. É desconhecido qualquer citagào 
a este conceito antes do livro acima citado. 

Segundo este conceito. Bara do corpo seria urna "qualidade de Èsù" que existiria dentro 
da pessoa, que Ihe daria movimento e vida, rensponsavel pela comunicagào da pessoa 
com o mundo exterior, e que daria à pessoa o conceito de "estar viva", sendo que sua 
ausencia significaria a morte. 

Entendemos porém que tal conceito està completamente equivocado, e o motivo de tal 
equivoco é a linguistica, mais urna vez. 

Abrindo um parèntese, antropólogos sustentam que o léxico nào pode ser utilizado 
corno algo fixo, e que se deve levar em consideralo o uso estendido da palavra na 
sociedade religiosa. Podemos considerar tal extensao quando ocorre naturalmente a 
partir da pràtica do nativo ou agente religioso. 

Porém, quando se percebe que tal extensao do significado da palavra nào ocorreu 
naturalmente pelo uso nativo, mas veio a existir etnograficamente por urna tese 
acadèmica, é necessàrio um estudo mais profundo principalmente quando eia altera 
conceitos e tradi$oes antigas. Dificil é saber se foi apenas um equivoco, talvez fruto da 
utopia acadèmica, ou se foi um ato improbo. 

Assim, usando da inflexibilidade do léxico, mantemos nossa afirmagào que tal conceito 
està equivocado, fechando o parèntese. 

Julgamos importante realizar este estudo, que nào pretende esgotar o assunto, nem ser 
a ùltima palavra, mas procura mostrar os equivocos que induziram urna das tradigoes 


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Bara do Corpo - Luiz L. Marins 


das religioes de matriz africana a adotarem um conceito de pessoa inexistente na 
cultura tradicional ioruba. 

Analise o leitor nossos argumentos, confrontando-os com os dicionàrios, e forme sua 
pròpria opiniao deste complicado tema. 


OS DICIONÀRIOS 


Vejamos nos dicionàrios os significados de Bara, observem atentamente os tons e 
considerem as enormes possibilidades que podem induzir-nos a equivocos, devido à 
ortografia e estrutura da lingua lorubà. 

Dictionary of thè Modem Yoruba. 

• Bara, 96-97 

Bara bara = melancia > citrullus vulgaris. 

barò = mausoléu reai onde sao enterrados os Alàààfin. 

bòra = bàrà-bàrà = correr movimentando-se de um lado para o outro. 

bara = encontro, reuniao. 

barò = urna coisa podre. 

bààrà = expressao ligada ao ato de defecar. 

bààrà = o ato de come?ar algo. bàrà-bàrà = o ato de amarrar algo com firmeza. 
bàra-bàra = fazer algo superficialmente 

• Bàraa, pg. 87 

Bà [...] B. [...] ó bàraa re ni wàjuùmi > eie encontrou-se na minha presenta [...] mo bàraà 
mi nilé nàà > eu me encontrei naquela casa [...]. 


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• Gbora, p. 235. 

Gbara x ó ti gbara di (he is fully equiped) eie està completamente equipado. 

[para realizar algo], 

A Dictionary of thè Yoruba Language, P. 53: 

• bòra = pianta rasteira que fornece o óleo de semente egunsi. 

• baro = deus do engano, o demònio, Ifà. [nao concordamos, mas assim consta] 

• bàrabàra = pequena quantidade. 

• bàrabàra = rapidamente, apressadamente. 


BÀRAA - O DUPLO DA PESSOA 


“Bàraa" ou "Bòra do corpo" é urna expressao idiomatica (òròbuòwe) relacionada com a 
pròpria pessoa, com o duplo da pessoa, o espirito que acompanha o corpo, e que Ihe da 
a vida e movimento. 

Nao tem nada a ver com Èsù Barò, cujo palavra é urna contrario de Elégbàra (eie + 
agbàra, aquele que tem o poder). Èsù Barò nao està dentro do corpo, nem é o Èsù do 
corpo. 

Verificando o dicionario de ioruba de R.C. Abraham, Dictionary of Modera Yoruba, 1962, 
pg. 87, no verbete "ba" temos a seguinte informaqao: 

• Ó bàraa re ni wàjuùmi > eie encontrou-se na minha presenta. 

• Mo bardò mi nilé nàà > eu me encontrei naquela casa. 

Como vemos, a expressao bàraa refere-se à pessoa, é a pròpria pessoa, cujo sentido 
estende a "o que acompanha o corpo", a contraparte espiritual, o duplo, que està junto 
com a pessoa, faz parte da pessoa. Repetimos: é a pessoa. 


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Este conceito de pessoa, possivelmente por similaridade fonètica, foi associado a Èsù 
originando um pseudo conceito de “Èsù Bara do corpo". Atualmente virou 
"fondamento" em algumas casas religiosas de matriz africana, possuindo até mesmo 
assentamento pròprio. 

Importante - Nao nos referimos à feitura no Batuque do Òrìsà Bara (no batuque) mas 
sim "Bara do corpo da pessoa" que supostamente daria-lhe movimento e a vida, que 
seria um Bara que estaria dentro do corpo da pessoa, que nasceria com eie e morreria 
com eie. Isto nao existe no conceito de No$ao de Pessoa Ioruba. 

É associado à vasilha de buzios que representa a pessoa nos assentos individuais, 
conforme explica Barretti: 

" Bara è um dos nomes que se chama a vasilha com buzios, que faz parte das 
representagòes individuais do iniciado, cujos buzios, futuramente, o mesmo efetuarà a 
divinagao". 1 

Acreditamos que um dos motivos que levaram a este equivoco foi o desconhecimento 
de outro conceito, muito explicado que è o conceito de èmi, espirito eterno "nao 
encarnado", portanto, um ara-òrun, um ser espiritual, versus èémi, a respiralo. 
Evidenciando, temos: 

IORUBA PORTUGUÉS 

èmi vs èémi = emi vs emi 

Por muito tempo pensou-que estas duas palavras em sua escrita aportuguesada, 
tivessem um conceito unico de "respiralo". Seria entao necessario que algo animasse 
os corpos na terra. 

Esse algo foi justamente outra palavra ioruba mal compreendida: bàraa, a pessoa 
espiritual, associada equivocadamente a Èsù. 


1 Aulo Barreti F 2 , informa?ào pessoal. < http://aulobarretti.wordpress.com > 


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Acreditamos que a partir do desconhecimento do significados destas palavras 
parònimas Bàraa, Bara, èrmi, èémi, foi que surgiu o conceito equivocado de Èsù Bara do 
Corpo. 

Este é um dos contra conceitos, a nosso ver equivocados, do uso da palavra "bara". Ha 
um segundo relacionado aos òrlsà, a palavra gbara (R. C. Abraham, pg. 235) que significa 
"a parafernalia completa ou conjunto de coisas de algo ou alguém", e quando aplicada 
sobre os assentamentos religiosos, toma urna conotagao especial porque, todos os 
elementos que compoe o assentamento de um determinado Òrlsà, juntos, podem ser 
chamados de gbara Òrlsà. Como em portuguès nao existe o fonema "gb" torna-se 
simplesmente "bara de Orixà". Este conceito termina por confundir-se com o 
assentamento do Èsù do Òrlsà, também chamado de "bara do santo". 

Da mesma maneira, o conjunto de elementos que formam o assentamento de Ori pode 
ser chamado de " bara de Ori", isto é, o conjunto de coisas que compoe o assentamento 
de Ori. Mais urna vez as palavras tendem a confundir-se com Èsù Bara. 

Este é mais um dado complicador, pois quando em um texto aparece a expressao “bòra 
do Òrlsà" ou “bòra do Ori", nao sabemos o quis dizer o autor, nem a que, exatamente, 
o autor se refere, se é que o pròprio autor nao està a confundir-se. Durante décadas 
estas palavras confundiram e geraram equivocos. 2 

Outra expressao "Èsù obara - o rei do corpo" é outro equivoco. Em nosso entendimento 
nao existe "Èsù Rei do Corpo" ou "Exu Bara do corpo" na concepgao do Òrlsà Èsù corno 
parte formadora da "pessoa". 


2 Ver " A Imortalidade Yoruba nos Candomblés Kétu ", Aulo Barretti F 9 . 


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BREVE ANÀLISE DE ALGUNS CONCEITOS DO LIVRO "OS NAGÒ E A MORTE" 


Dissemos que sua origem é o livro Nagó e a Morte. Nao queremos corri isso dizer que o 
livro é ruim, nao. 0 livro tem seu valor, discorre maravilhosamente bem sobre Èsù corno 
principio dinàmico de comunicagào e realizagào, sem o qual tudo ficaria estagnado e 
parado. Neste conceito concordamos com a autora. 

Assim, apresentaremos a seguir alguns pontos alguns pontos de concordancia e 
discordancia de nosso pensamento. 

Concordàncias: 

"Èsù nao pode ser isolado ou classificado em nenhuma categoria [...] Principio dinamico 
e de expansao de tudo o que existe, sem eie todos os elementos do sistema e seu devir 
ficariam imobilizados. " pg. 130 

"Em virtude de corno Èsù foi criado por Olódùmarè, eie deve resolver tudo que possa 
aparecer, e istofaz parte de seu traballio e de suas obrigagoes. " pg. 131 

"Olódùmarè fez Èsù corno se fosse um medicamento de poder sobrenatural pròprio para 
cada pessoa". pg. 131 

"Os Èbora, os Òrisà e todos os ìrunmalè podem ver-se a si próprios, acompanhados de 
seu Èsù [...] Todos os ebora e os òrisà tem , sao os irùnmalè, cada um tem seu pròprio Èsù 
à parte. " pgs. 131-132 . 

"A fungào de Èsù consiste em solucionar, resolver todos os trabalhos, encontrar os 
caminhos apropriados, abri-los ou fechà-los e, principalmente , fornecer sua ajuda e 
poder a firn de mobilizar e desenvolver tanto a existència de cada individuo corno as 
tarefas especificas atribuidas e delegadas a cada urna das entidades sobrenaturais. " pg. 
132 


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"Èsù é o principio reparador do sistema Nàgó. È o controlador rigido de todos os 
sacrificios. Inspetor geral, segundo Idowu (1962) pg. 163 

"Oficial de policia imparcial, segundo Abimbola (1969: 393) gue diz: a agao de Èsù é a 
de ... punir os contraventores, particolarmente, aqueles gue negligenciam fazer o 
sacrificio presento. " pg. 163 

"Se Èsù abrir os fechar os caminhos, nao é por acaso corno o sugerem alguns autores, 
mas resultado do simbolo complexo gue eie representa. Seu pape! corno censor dos 
caminhos està estreitamente ligado à sua fungao de principio de reparagao [...] Eie é a 
interagao e résumé os significados. " pg. 169-170 

"A colaboragao de Èsù é indispensàvel, nao só para mobilizar o rito, mas também porgue 
corno elebo é o ùnico capaz de transportar e fazer aceitar as oferendas [...] sem a 
colaboragao de Èsù, a dinamica ficaria paralisada. " pg. 183 

Discordàncias: 

Para que nao julguem nossa critica corno gratuita e oportunista, citaremos um extrato 
do texto de Fernando Brumana (2007), professor da Universidade de Cadiz, Espanha: 

"Elbein menciona os informantes africanos dos quais tomou longas cantigas, mas nada 
diz das condigòes em gue esses textos foram registrados, da relagao gue teve com os 
informantes, do grau de integragao no grupo - caso existisse - a gue pertenciam, a 
lingua em gue se comunicavam, etc., salvo urna referència em nota de rodapé, na guai 
informa sobre um idoso com o guai trabalhou em 1970-71, na Nigèria, gue Ihe recitou e 
traduziu (para o inglès, suponho) urna narragao Os Nago e a Morte, p. 59. 

Meu exemplar està cheio de anotagòes marginais junto a histórias registradas por 
Elbein: de onde as tirou? Em gue condigòes se contam normalmente? Em gue lingua as 
transmitiram? " 

No mesmo texto, Brumana transcreve um surpreendente e revelador depoimento de 
Juana Elbein a Vagner Gongalves da Silva: 3 


3 O antropòlogo e sua magia, Edusp, Sào Paulo, 2000, p. 102, apud, Fernando Brumana, o. c., pg. 17. 


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"Eu mirica me coloquei, corno ainda hoje nao me coloco , corno urna religiosa. Eu me 
coloco corno urna pessoa aberta a todas as vivèncias [...]. Eu posso dar minhas 
expiicagòes intelectuais para tudo isso, mas elas nao tèm valor. " 

Como vemos, os questionamentos do trabalho de Juana Elbein dos Santos, e por 
consequència, toda a cosmologia, teologia, teogonia, mitologia e conceitos inseridos na 
diaspora religiosa afro-brasileira nao sao apenas nossos, mas também da academia, 
sendo o principal deles, o de Verger em sua famosa critica "Etnografia Religiosa loruba 
e Probidade Cientifica", publicado na revista do ISER. 4 

As afirma$oes a seguir publicadas no livro "Os Nagó e a Morte", embora aceita pela 
maioria dos sacerdotes e pesquisadores, sao equivocadas segundo nosso 
entendimento.. (Faremos um comentàrio em sequència). 

"Se alguém nao tivesse Èsù em seu corpo, nao poderia existir, nao saberia que estava 
vivo [...] Èsù é o principio da existència diferenciada. " pg. 131 

"Oiódùmarè criou Èsù corno um ebora todo especial de maneira tal que [...] residir em 
cada pessoa". pg. 132 

"È no seu pape I de principio de vida individuai que Èsù Bara està indissoluvelmente ligado 
à evolugao e ao destino de cada individuo", pg. 169 

"Em segundo lugar que todos os seres, sem excegao, todos os Irùnmàlè, todos os seres 
do òrun ou do àiyé, todas as porgòes de existència diferenciada, só podem existir e 
expressar-se por possuir seu Èsù, seu principio de vida individuai, seu elemento dinamico, 
o rei do corpo: bara = oba + ara. " pg. 181 

"Se cada coisa e cada ser nao tivesse seu pròprio Èsù em seu corpo, nao poderiam existir, 
nao saberiam que estao vivos. " pg. 181 

A no?ao de estar vivo de urna pessoa nao depende de Èsù, mas sim, de èémi (a 
respiralo). 0 "movimentar" do ser humano, para respirar, depende de sua vontade ou 
necessidade corno arayé (ser humano). A no$ào de existència diferenciada està em Ori, 


4 Disponivel em www.luizlmarins.com.br . Ver em Artigos. 


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e nào em Èsù, de forma que eie nao "reside" dentro de urna pessoa. Para melhor 
explicar nossa contestalo, faremos urna comparalo abstrata. 

Supondo-se que em urna casa qualquer, Èsù seja a eletricidade, e a fiagao, seus 
assentamentos, se porventura faltar energia elétrica, o poder de realizagao do arayé 
dentro desta casa ficara prejudicado, mas sua vida propriamente dita continuarà 
existindo, sem depender da energia elétrica para respirar ou movimentar-se. 0 principio 
de vida individuai està em Ori, e nao em Èsù. 

Nao necessitamos de grande estorco para contestar, pois a pròpria autora contesta sua 
tese de Èsù corno principio de vida individualizada, quando fala de Or/' nas paginas 205. 
216. 217 : 

"O doble do Ori, residindo no òrun, é, pois, o doble da existència individualizada de cada 
pessoa [...] Com efeito. Ori é o que individualiza [...] Ori, representagao de vida 
individualizada no àiyé [...]". 

Aqui é ponto "x" da questao. Juana contunde o assentamento que representa a pròpria 
pessoa, o bàraa individuai, que contém os buzios, atualmente conhecido por igbà-ori 
(chamado de cremeira no Batuque), com Èsù Bara que acompanha o Òrìsà. 

"O Èsù individuai, o Bara, é adorado e cultuado em privado pela pessoa a quem 
acompanha, e a vasilha assento que o representa està localizada num lugar privativo 
dessa pessoa. A vasilha e seu conteudo representam seu bara òrun visto que seu bara 
aye reside em seu pròprio corpo [...] Toda sacerdotisa, no momento de ser iniciada, 
recederà dois tipos de vasilhas assentos consagrados: 

a) a que representa seu Elédà, isto é, seu òrìsà, dono da cabega; 

b) a que representa seu Èsù pessoal, seu bara. 

Como se pode perceber, eia recederà seu bòra ao mesmo tempo, ou até antes da entrega 
ao assento individuai do seu Òrìsà." Pg. 209. 


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Neste ponto precisamos lembrar a fala do prof. Aulo Barretti P quando diz que " baro é 
um dos nomes que se chama a vasilha com buzios, que faz parte das representagòes 
individuati do iniciado , cujos buzios, futuramente, o mesmo efetuarà a divinagào". 

Pensamos ser este o motivo da autora dizer que “se alguém nao tiverÈsù em seu pròprio 
corpo, nao pode saber que està vivo" ... um equivoco conceitual de Nogao de Pessoa. 

"De fato, cada Òrisà possui seu Èsù [...] Na realidade, é o elemento È sù de cada um deles 
que executa suas fungoes. " pg. 131 

"Essa capacidade dinamica de Èsù permite a Sàngó langar suas pedras de raio e a 
Òsànyin preparar seus remédios [...] é conhecida sob o nome de agbàra." pg. 134 

Està afirmagao equivale a dizer que seria o Èsù de Ògun que malha o ferro, que seria o 
Èsù de Obàtàlà que criou o mundo, etc. Se assim fosse, deveriamos cultuar entao apenas 
Èsù. Para que cultuarmos outros òrisà se seria o Èsù deles que faz tudo? Nao tem sentido 
o conceito assim colocado. Melhor seria dizer que Èsù é o poder de realizagào do Òrisà. 

Neste sentido queremos destacar a palavra "agbàra”. Està palavra isoladamente 
significa "forga", e outra palavra “aiàgbàra" significa "forte, poderoso, o que tem a 
forga" (Abraham, 1962. pg. 26), e forma um dos oriki (titulo de louvor de Èsù), cuja 
abreviagao é "bara". 

"Èsù é o primogènito do universo. Examinando a concepgào do universo, resumimos um 
mito da gènese sobre a aparigao dos elementos cósmicos entre os guati se destaca Èsù 
Yangi." pg. 134 

No idioma ioruba, primogenitura pode ser traduzido pela palavra àkóbi ou ikóbi 
(R.C.Abraham, pg. 387). Temos a frase: Òjó làkó bumi (Meu primeiro filho é Ojo). 

Na cosmologia ioruba, é universalmente aceito que Obàtàla é o primeiro filho de 
Olódùmarè . Para que Èsù seja o primogènito, é preciso que, ou Èsù tome o lugar de 
Obàtàlà, ou entao que Obàtàla seja o pròprio Olódùmarè. 


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REFERÈNCIAS 

ABIMBOLA, Wande. "Notes on thè Collection, Transcription, Translation and Analysis of 
Yoruba orai Literature", in, AFOLAYAN, Adebisi (Org.) Yoruba Language and Literature, 
Ife, University of Ife, 1982. 

ABRAFIAM, R. C. Dictionary of Modem Yoruba, London, Hodder and Stoughton, 1962 
[1946], 

BARRETTI FILHO, Aulo. A Imortalidade Yoruba nos Candomblés Kétu. Internet. Acessado 
em 02/01/2015. Disponivel em < http://www.luizlmarins.com.br > /artigos. 

BRUMANA, Fernando Gionellina "Reflexos Negros em Olhos Brancos", Revista Afro- 
Asia, n. 36, Salvador, 2007. 

CMS. A Dictionary of thè Yoruba Language, Ibadan, University Press of Ibadan, 2001 
[1913], 

MARINS. Luiz L. O perigo para as reiigiòes afro-brasileiras. Internet. Acessado em 
02/01/2015. Disponivel em < > /artigos. 


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